O ambiente de trabalho está mais judicializado do que nunca em Campinas. Entre janeiro e julho de 2026, o Fórum Trabalhista da cidade registrou 7.145 processos relacionados a assédio moral, acúmulo de função ou pedidos de indenização por dano moral — um ritmo que, mantido até dezembro, deve superar o recorde de todo o ano anterior.

7.145

processos em Campinas de janeiro a julho de 2026

71.535

ações no TRT-15 (599 municípios paulistas) no mesmo período

5º ano

seguido de crescimento no número de processos desse tipo

Em 2025, o Fórum Trabalhista campineiro encerrou o ano com 11.708 processos do mesmo tipo. Proporcionalmente, o volume registrado só em sete meses de 2026 já representa mais de 60% desse total — indicando aceleração no ritmo de judicialização das relações de trabalho na cidade.

Tecnologia, cobrança e o peso da produtividade

Para a desembargadora do TRT-15 Adriene de Moura David, a tecnologia transformou não só a forma de trabalhar, mas também o nível de exigência sobre os profissionais. Segundo ela, ferramentas digitais que deveriam facilitar o trabalho acabam funcionando como mecanismos de pressão constante:

"As pessoas são pressionadas a produzir mais em menos tempo." — Adriene de Moura David, desembargadora do TRT-15

A magistrada destaca ainda que o maior acesso à informação faz com que os trabalhadores identifiquem situações de abuso com mais facilidade — algo que antes passava despercebido ou era tratado como norma do ambiente corporativo:

"A informação chega de uma forma mais rápida e até mais completa." — Adriene de Moura David, desembargadora do TRT-15

NR-1 e os riscos psicossociais

Outro fator que contribui para o aumento das ações é a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir expressamente o gerenciamento dos chamados riscos psicossociais no ambiente de trabalho — categoria que abrange situações relacionadas a assédio moral, sobrecarga e pressão excessiva.

A norma obriga as empresas a identificar, avaliar e controlar esses riscos, o que ampliou a visibilidade do tema e incentivou mais trabalhadores a buscar orientação jurídica quando se sentem lesados.

A história de Miguel: acidente, retorno e isolamento

O montador Miguel Falasca viveu na prática o que os números revelam. Após sofrer um acidente de trabalho e passar por cirurgia — que o deixou sem a movimentação plena de um dedo e com força reduzida na mão — ele retornou à empresa e percebeu que o tratamento havia mudado de forma drástica:

"Antes do meu acidente, eu era tratado de uma forma, participava de reuniões, de conselho de segurança, de brigada. Quando eu voltei do acidente, eu já não participava de mais nada." — Miguel Falasca, montador

O isolamento progressivo e os comentários velados de colegas hierarquicamente superiores tornaram o ambiente insustentável. Miguel acabou deixando a empresa e levou o caso à Justiça do Trabalho. Para o advogado que o representa, Edvaldo Volponi, a situação se enquadra com clareza como assédio moral:

"Isso é uma situação que a Justiça já reconhece como prática de assédio moral. Foi feito um acordo por conta da gravidade do processo e da situação do cliente." — Edvaldo Volponi, advogado

O caso resultou em acordo judicial após reconhecimento da gravidade da situação. Agora, a etapa é aguardar o cumprimento integral dos termos pactuados.

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